domingo, 11 de outubro de 2009

Lembranças doces de um mar salgado




Houve um tempo em que as nossas férias na praia duravam de 15 dias a um mês.

Houve uma época em que, ao invés de procurar uma agência de viagens, bastava combinar com a família e partir para a casa da avó. Família, leia-se: avó, pai, mãe, irmãos, tios, tias, primos, amigos, cachorro...

Um rancho, que delícia de palavra. Um rancho na praia, uma combinação ainda mais deliciosa.

Acredito que as pobres das mães daquela época, caso questionadas, prefiram de longe as férias de hoje àquela visão interminável de louças para lavar!

Ah, aquela época onde não havia restaurantes self-service...

Ah, aquele tempo em que meu pai trazia peixes recém-pescados e mais um tanto de mentiras cabeludas na geladeira de isopor...

Um tempo de farofeiros na praia (e nós éramos uns deles, e com orgulho!). Imagens nítidas me vêm à cabeça da intrincada operação para se colocar o guarda-sol bem enterradinho na areia. Não, eles não nos esperavam já prontinhos, como as praias particulares de nossos bem conhecidos resorts. Eram colocados ali, com suor e esforço. E ainda tínhamos que carregar as cadeiras de praia naquela grande trilha de terra batida e mais um tanto de metros de areia quente.

Houve uma época em que conferíamos as ofertas de cadeira de praia na loja Mesbla! (Que me perdoem os mais novinhos que não têm essa referência...)

Houve um tempo em que eu lambia o picolé de creme holandês e ele ficava transparente, pois era puro gelo. Ou comia abacaxi cortadinho em rodelas e chupava cana até a barriga doer.

Nas minhas férias de infância, o cheiro de terra molhada, maresia, fumaça para espantar pernilongo, peixe frito e pitanga se confundiam ao longo dos dias que pareciam intermináveis, tanto era o tempo disponível para brincar, comer, nadar, brincar, dormir ou não fazer nada (sim, isso existe!)

Meu Deus, eu assisti ao casamento da Ladi Di com o Príncipe Charles em uma casa de praia. Ou tentei assistir, para ser mais clara. A televisão raramente pegava, e a imagem era tão cheia de fantasmas e chuviscos que freqüentemente perdíamos a paciência, isso quando o controle do vertical (lembram-se?) tinha que ser acionado para conseguirmos enxergar alguma coisa.

Houve um tempo em que eu gritava porque tinha sapo no box do banheiro, porque tinha minhoca no anzol, porque tinha besouro na mesa, porque minhas costas e meu corpo inteiro doíam e eu parecia um pimentão vermelho e porque minha barriga estava ralada de tanto pegar jacaré na prancha de isopor.

Eu já peguei bicho de pé na praia.

Já chorei de medo de histórias de terror contadas na praia.

Já tive paixonites de infância na praia, alimentadas pelo som de “Como uma Onda” do Lulu Santos no meu walk-man.

Já brinquei de jogo da memória na praia, de mímica de filmes, de fogãozinho de lenha para fazer arroz doce de verdade, de cavaleiro, de princesa, de sereia, de bola, de castelo, de gravar imitações de novelas de rádio em um gravador de fita-cassete.

Já guardei água salgada na garrafa de água mineral para levar para casa.

Já peguei um siri e coloquei em um balde para virar bicho de estimação (ele fugiu, lógico).

Já fiz coleção de conchinhas.

Já cresci. Mas essas lembranças não saem nunca de dentro de mim.

Elas vêm e voltam.

Como uma onda no mar.

10 comentários:

  1. Lindinho demais! Fiquei até emocionada, pois eu também "viajei" junto com você pra o "Rancho da Mãe Leta"... Velhos tempos, velhas recordações, tempo em que em nada se parece com esse que vivemos agora... Mas a vida é assim mesmo, a fila anda e a gente tem mais é que acompanhar, mas não sem antes guardar, com bastante carinho, num lugarzinho especial do coração, todas essas lembranças que nos fizeram tão bem à alma.
    Gostei do seu blog (nem sabia que você tinha esse também...).
    Um beijão prá você e prá Jujú.

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  2. Hahaha, as lembranças são praticamente as mesmas, muda só o endereço (a praia). Sofri os piores enjoos do mundo na viagem de 12 horas no fusca com malas no teto e bicicletas na traseira (de BH a Marataízes). Meus picoles eram de abacate, mini saia, milho verde e coco. Assisti ao velório e enterro da Elis Regina em Guarapari. Torrei as costas e passei noites mal dormidas bezuntada de Hypoglós. Usei Noscote. Minhas primas mais velhas usaram Tan-o-ton. Assisti a filme de vamnpiro no Super 8 na parede do condomínio onde nos hospedávamos. Corri atrás de caminhão pra roubar cana (apesar da efusiva proibição da minha mãe). Masquei ploc e ping pong até cansar. Aprendi a andar de bicicleta sem rodinha com a minha prima Andrea. Andei no trenzinho da alegria. Andei a cavalo. Fugi do vizinho que pegou um caranguejo e fez de bicho de estimação. Fiz castelos, fortalezas e buracos na areia. Não me lembro de ter pegado bicho de pé. O Phil pegou. Ano passado, em Barra Grande! Coitado, ficou em estado de choque! hahahaha. Amei, Lois! Só lembrança boa!

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  3. Adorei o texto, Lu, me transportei de corpo e alma para o Rancho da Mãe Lêta, obrigado mesmo...

    bjs
    tio Sergio

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  4. Adorei sua visitinha ao "mosaicos". Agora que você aprendeu o caminho direitinho, volte sempre...:-))
    Você comentou dos seguidores, por falar nisso, você reparou que virei sua seguidora aqui?
    Agora, você vai ter que tomar cuidado comigo, pois vou estar sempre de olho em você. Rsrsrs
    Bjssssssssss. Cid@

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  5. Pensei muito em vocês, afinal como viajámos juntos! Beijos mil...

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  6. Sou muito feliz por ter feito parte dessa história. Não tem uma linha do que você escreveu que eu não lembre também com uma nostalgia boa.
    Como o Leo seu irmão comentou comigo dia desses na casa do Gu, éramos hippies e não sabíamos.
    Bjs do primo
    Gui

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  7. Nossa, Lu...qu coisa mais linda! Me teletransportei para São Franciso e senti até o gosto da pitanga na boca.Que fase linda passamos ali, que infância verdadeira! Muito bom ler no meio do dia palavras tão doces.Sem dúvida, éramo felizes e sabíamos!

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  8. que lindo esse post...amei e senti q foi de coração

    bjos

    LuRussa
    www.garotinharuiva.blogger.com.br

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  9. Oi Lu, obrigada por passar aqui! E eu estou curiosa para aprender mais sobre sua viagem ao Chile!

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