quinta-feira, 1 de abril de 2010

Parada... Na parada...

À frente, dois homens fazem uma dancinha instantaneamente ensaiada. Bracinhos pra lá, palma, bracinhos pra cá, palma.
Eles estão sentados no porta-malas de um carro antigo (bem, quando escrevi antigo, quis dizer VELHO mesmo). O porta-malas está aberto, o som ferve pelos auto-falantes que não suportam o grave e fazem um barulho de chiado. Mas tá valendo.
Minha cunhada imita a dança, logo sigo atrás. Minha filha também. Estamos no nosso carro, com os vidros abertos, um calor de melar, a roupa chega a grudar. Não resta muito a fazer, a não ser ver os moços empolgados com o ar de "estressar pra que, já estamos na lama mesmo".
Parados. Completamente parados. Uma fila de carros imensa à frente, outra seguindo atrás de nós. Eu, meu irmão, minha cunhada, e três crianças cansadas de tentar entender porque cargas d'água elas não chegam nunca em casa.

Era uma vez duas famílias que quiseram ir a uma Parada da Disney no bairro da Pampulha, na cidade de Belo Horizonte, promovida pela Nestlé. Era uma vez duas famílias que imaginaram ser capazes de ver as Princesas da Disney e a turma do Toy Story. Ao contrário, viram uma multidão de pessoas se aproximando da orla da lagoa, sem entenderem o que deveriam fazer para participar de tão promissor espetáculo.

-Vou sentar aonde?
-Só se for na cabeça das pessoas.
-Ou em cima do banheiro químico, olha lá, tá cheio de criança ali em cima.
-Vai passar aonde essa parada?
-Sei não.
-Mas você não trabalha pra eles? Tá toda uniformizada!

Surreal... Surreal a quantidade de pessoas, surreal a quantidade de folhetos sendo distribuídos, de campanha anti-dengue a curso de inglês, e que imediatamente eram despejados no chão... Surreal as mães carregando recém-nascidos debaixo de um sol de rachar mamona... Surreal perceber que, apesar do esforço, ia ser tarefa impossível conseguir enxergar alguma coisa!

-Quero sair daqui - reclamavam as crianças.
-Vamos lá no parque Guanabara então (eu disse), quem sabe lá a gente vê alguma coisa.

E a gente viu: mais fila, mais gente, mais calor, mais reclamação, mais estresse. Quem foi mesmo quem teve a brilhante idéia de vir aqui??? Ah, sim, fui eu.

-Vamos lá para a pracinha da frente, quem sabe a gente vê alguma coisa.
-Mas tá lotada.
-Põe os meninos no ombro.
-Põe no teto do banheiro químico.
-Não, é melhor no ombro.
-Gente, eu não consigo, a Júlia tá pesada demais, tem que ser assim, ó, levantando ela e segurando pelas pernas!!! Tá vendo, filha?
-Tô, mãe, é a turma do Toy Story, o Woody...
-Não olha pra mim, filha, olha pra FRENTE! Eu aqui te carregando, e você olha pra MIM?
-Mãe...
-QUÊ???
-Não tá passando nada, pode me descer, acho que é intervalo.

Ufa... Balanço os braços, respiro fundo, OLHA AS PRINCESAS, agarro a Júlia, subo ela de novo...

-Tá vendo, filha???
-Tô, mãe, a Ariel tá linda, o Sebastian tá bem atrás, e...
-OLHA PRA FRENTE, Júlia! Para de olhar pra mim!

Tio Léo, nesse momento, entra em ação e pega a Júlia nos ombros. Os meninos reclamam, estão com ciúmes. Gente, gente, é hora das princesas, dá uma chance para a prima!

-Mãe, tô vendo a coroa! - Grita a menina do lado, cuja mãe era baixinha...

-Mãe? MÃE!!!! (Ah, dessa vez era a Júlia)
-Que foi, filha???
-Tô toda pinicando, tá doendo, tá coçando, ai, ai, ai!

Pronto, era só o que me faltava. Uma crise alérgica agora.

-Foi aquela hora que você me sentou no telhado do banheiro químico.
-SHHHHHH.... Fica quieta, filha!!!!!!!! Ninguém pode descobrir que sua mãe fez isso!!! Isso foi um momento de insanidade! Foi um minutinho só, depois eu tirei!
-Tá coçando, mãe!
-Tira a roupa! Tira a blusa!
-Não quero,mãe.
-Gente, o pior é que eu tô coçando também, e nem fui no banheiro químico... O que é que tá acontecendo? Tá pinicando, uma coisa esquisita!

Um minuto depois, Luca começa a reclamar. Graças a Deus a parada tinha acabado. Não que fizesse alguma diferença, já que não vi nada mesmo. Ai, tá coçando, minhas costas doem, tô com calor.

Mais uns minutos enfrentando a multidão para ir até o carro. Resolvemos dar um tempinho na casa de um amigo do meu irmão, que mora ali do lado, para esperar a multidão ir embora.

Doce ilusão. Tudo bem, demoramos um pouquinho, demos banho de ducha nos meninos em plena área da piscina, arrancamos as roupas, esfregamos sabonete, Júlia empolou, uma delícia! É planta mesmo, tem que passar bucha vegetal para tirar os micro-espinhos. Micro-espinhos... Essa foi demais. Júlia põe a roupa e grita de novo. Claro, tá tudo na roupa dela. Pega a blusa do Yuri, é o único que não tá coçando. Yuri fica sem blusa, Júlia de Homem Aranha.

-Que cheiro é esse?
-De carro estragado.
-Mas que carro é esse?
-Uma Belina.
-Belina é carro?
-Depende do ponto de vista.
-E esse?
-Um Corcel.
-Estragou também?
-O que você acha????

Duas horas no carro. DUAS HORAS. Não, você não leu errado. Duas horas, e voltamos para a dancinha à nossa frente. Quanto tempo durou a parada? Sei lá, meia hora. Ah, contando com a parada no trânsito? Umas três horas e meia... Ah, contando com a parada que fizemos em um restaurante para comer espetinho, correr atrás de bolha de sabão e esperar o trânsito acalmar? Umas quatro horas e meia.

Ao sairmos do tal restaurante, em uma avenida movimentada do bairro Ouro Preto, cansados, extenuados, loucos para chegar em casa, ouvimos uma menina de uns 6 anos de idade reclamar para sua mãe:

-Ah, neeem.... Uma hora parada aqui e nem é ponto de ônibus????????????

Tem gente em pior situação, pensei, reunindo as últimas energias para a derradeira etapa da viagem...


Bom-humor à parte, fica a indignação pela ABSURDA falta de organização do evento. Melhor não tê-lo. Sofreu a Pampulha, a cidade, a criança, os pais, enfim, um CAOS. Verdadeiro CAOS.

Era uma vez, três crianças esperançosas...

Que tiveram que contar com colos solidários...


Era uma vez pais que passaram a contar com 'adereços' pesadinhos nos ombros...


Que tiveram de esticar o braço até o último grau para conseguir uma foto que engana bem quem pensou que realmente VIMOS a parada...


Ou enfrentar filas intermináveis de carros...


PARADA (Poxa, mais uma?) para um espetinho... Uma hora e meia enrolando para o trânsito melhorar... E alguém esperando em um ponto de ônibus imaginário por uma hora... Uma aventura para ficar na história. NUNCA MAIS...

7 comentários:

  1. Meu Deus!!! Agora, a próxima Parada Disney, só na Disney mesmo.Concorda? kkkkk

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  2. O bom dessas coisas, é que depois até que dá prá rir... mas tem que ser BEM depois, né Lú?...rsrs

    Tadinha das crianças! Morri de peninha!...

    Mas afinal, quem foi que organizou, ou melhor DESORGANIZOU essa parada??? Nem dá prá acreditar!
    Se fosse em Pouso Alegre, acho que teria sido um pouquinho mais organizada...Rsrsrs

    Fala sério, ninguém merece!!!

    Beijos e te desejo um feriado um pouquinho melhor que isso...kkkkkkkkkkk

    Feliz Páscoa!

    Cid@

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  3. Luiiiiiiiiza de Deus! Até que a cara de vocês na foto tá boa em comparação com a descrição do inferno que vocês passaram! Arre égua! Saravá!

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  4. Lena, nem fala! COM certeza vai ser na Disney!

    Tia, QUALQUER coisa é melhor que isso, até injeção na testa!

    Ana, saravá triplo!!!!!

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  5. Agora é muito engraçado e divertido né? Mas o que não fazemos pelas nossas crinças, afinal pra eles foi tudo uma festa....

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  6. Olá Luiza! Adorei sua narrativa, apesar de sentir por vocês o estresse que a má organização do evento causou. Por seu redator, leio com aquela dúvida se vou "entrar" no cenário da crônica. "Entrei e curti"! Parabéns!
    Voltarei para acompanhar suas histórias. Abraço forte.

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  7. Muito obrigada, Taddeu, vai ser um prazer tê-lo aqui no Viajar Vicia! Colabore sempre que puder! :)

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