segunda-feira, 12 de abril de 2010

Pequenos detalhes de uma cidade chamada Paris.






Céu branco. Calor no metrô. Vento gelado na saída do metrô.

Muita gente. Muita gente diferente. Muito penteado diferente, corte de cabelo, cabelo-afro, preso em um coque. Gente com cara de mundo, gente com cara de França. Francês, pra mim, tem cara de francês, não tem jeito. Todos magrinhos, todos com nariz grande, rostos bonitos, bochechas rosas de frio. As meninas tem jeito de bailarinas. Mas a França é hoje muito mais, não só azul, branca e vermelha, mas também marrom, negra e amarela. A França é um mundo. Muita gente.

O celular conectado à internet virou um ícone. Onde olhamos, lá estão os parisienses com o fone nos ouvidos e o telefone à mão. A cor do aparelho muda, o hábito não. No metrô, na estação de trem, no trabalho, na rua, esperando o ônibus, a companhia é certa, mesmo estando só. Pedi uma informação a um jovem e ele, gentilmente, pegou o telefone e digitou o meu destino no Googlemaps. Acabou-se a era do “vira pra lá e vai direto”, gesticulando com o braço. Ou, para ser mais original, acabou-se a época do “siga o rumo do seu nariz”. Sim, uma vez já ouvi essa indicação em uma viagem de carro a Cabo Frio...

O tênis All-Star, ou Converse, é também uma instituição. A garrafa de água mineral é inseparável. Vale também uma caixa de 1 litro de suco, Garrafa Pet de 2 litros de água com sabor, não tem mal tempo. Difícil é ver alguém que não leve uma embalagem na bolsa ou a carregue nas mãos.

Paris é glamour e é pobreza. É grife e é lata de lixo. Aliás, o lixo não é de lata, pois todas as lixeiras públicas são de saco plástico transparente, que são trocados periodicamente. Os homens são muito elegantes, as meninas têm moda no sangue, enquanto outros têm fome. Não há como não se comover, estando no Brasil ou na França. Choca ver pessoas dormindo no metrô, embaixo de marquises, pedindo esmolas na porta das mais lindas igrejas ou nas bilheterias das estações, comendo sobras das lanchonetes, sendo acolhidas pelo “Samu Social”, como vi ocorrer com um senhor que morava embaixo de uma das marquises da linda e insuperável Place des Vosges.

O céu de Paris é tracejado. São desenhos formados pelos aviões. Impossível não
notar no céu azul os inúmeros caminhos que eles percorrem. O mundo inteiro passa por aqui a cada minuto. O tempo todo. Qual seria a linha que deixei? Ou que ainda deixarei?

Paris é a terra do vinho, do queijo, da boa culinária, do croissant, do pain au chocolat, da graça e do charme dos cafés à beira da rua, do cigarro, da bicicleta, da baguete conduzida pela mão e embalada apenas com um papelzinho no meio. Paris é a cidade dos turistas que a descobrem pela primeira vez, mas também é para os que têm sorte de vê-la novamente, em uma segunda oportunidade, e, assim, descobri-la de outra maneira... Um turismo por camadas... Vemos primeiro o que achamos que é essencial, para encontrar a essência algumas visitas depois...

O vento bate e carrega minúsculas flores brancas pelo ar. É a neve da primavera. Um passeio por um jardim sobre um viaduto, em meio à dinâmica capital francesa, tem o poder de nos transportar para outro tempo, um tempo que desacelera. É importante saber desacelerar.

É sábado. O céu azul e o vento gelado continuam. Gelado para mim, brasileira, não para alguns que vejo passar de camiseta de algodão, sem casaco nenhum. Meus ouvidos doem, eles sorriem ao ver o sol. Um delicioso passeio pelo Bois de Boulogne me faz pensar na minha minha filha. Saio tirando fotos como uma desesperada, tantas as novidades que vejo no caminho. Por que nunca pensamos em fazer esse brinquedo? E aquele? E o outro lá embaixo? Sim, moço, vou fazer o passeio de barquinho, sou só eu mesma, carrego minha filha no coração... Fotos, fotos, crepe de nutela com café, foto da crepe de nutela com café, hora de ir embora para o centro da cidade.

Vim aqui com medo de cara feia, fui surpreendida pela amabilidade de alguns. Vim para trabalhar, descobri que é também possível ser turista nas horas vagas. É possível ser muito em Paris, porque a cidade é assim. Intensa. Viva. Colorida. Fria. Quente. Cheia.

Na bagagem, levo lembranças para os que ficaram. Para mim, bastam as fotos, os cheiros, os gostos, a dor nos ombros, o cansaço físico, a saudade, o êxtase, a admiração, o pesar, o vento gelado que passeia pela nuca, o inchaço dos pés, os lábios rachados de frio e o sorriso de quem um dia, ah, um dia, pretende voltar pra descobrir um pouquinho mais disso daqui.


PS – Esse é o primeiro post (e talvez o único) que escrevo na fila de um check-in (em pé, apoiando o notebook no carrinho de bagagem!).

12 comentários:

  1. Oi Lois, que legal ler sobre uma cidade que eu também acabei de deixar! E eu senti a cidade ao ler o seu post! Agora uma pergunta... Eu também notei os lixos de plástico. A minha opiniao é que isso seja uma questão de segurança... lixos transparentes para ficar mais fácil detectar bombas... seria o medo do terrorismo? Parece estranho que Paris nao tenha lixeiras super enfeitadas que nem as que vemos em Roma... Logo a cidade mais chique do mundo...

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  2. Ana, com certeza é questão de segurança, pois assim é possível enxergar o conteúdo da lixeira!!!

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  3. Mas será que sou só eu que não gostei de Paris ?? rsrs...dá até medo de falar isso,pois todos a amam ! :)))

    Boa viagem querida !! conte tudo pra gente !!

    bjoss

    LuRussa

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  4. Oi Lu, há quanto tempo!!! Como assim, você não gosta de Paris? Será que a cidade não bateu com seu clima? Porque viagem tem muito disso, não adianta ser um lugar maravilhoso se a frequência do local não é a mesma do que a sua no momento da visita... Entendo que Paris pode ser muitas... Êta cidade multifacetada!!!! Fiquei curiosa, quero saber sua opinião!

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  5. Lindas imagens, e um texto super bem escrito e de uma sensibilidade rara.
    Essa é a minha afilhada!!!
    Me transportei novamente para a Paris de 2007, onde Marcilo e eu tivemos Gustavo por cicerone...e poderia existir outro melhor???
    Era início de outono, e quando caminhava pelos parques, colhia na grama as folhas coloridas e recém caídas das árvores... Hoje, já secas, elas enfeitam minha fruteira, e estão sempre me trazendo boas recordações.
    Bom demais quando a gente percebe que a beleza realmente habita na simplicidade, e que coisas que nos encantam, podem sim não custar nada, e nos dizer muito ao coração.

    Um ótimo feriado prá você.
    Beijos e cD

    Cid@

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  6. Oi Lu, só você para escrever esse post tão bem escrito em pé numa fila, etâ mulher antenada meu Deus. Adoreiiii, deu até vontade de conhecer...

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  7. Tia Cida, fiquei emocionada com seu comentário! Acho que você conseguiu resumir, em poucas palavras, a essência de saber viajar!
    Beijossssssss

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  8. Voltei a Paris nos seus comentários e nas fotos que você tão bem soube escolher.
    Paris é uma cidade que pede bis.
    Beijos.

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  9. Nem fala, quanto mais bis melhor... A cada vez você descobre uma nova cidade...

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  10. Simplesmente AMOOOOOOO PARIS!!!!! Sei lá! É realmente especial para mim!
    Já estava até com um POST (agendado) sobre as minhas primeiras impressões de quando estive lá a primeira vez... há uns dez anos atras...
    ;-)
    Bjka!
    Renata C., UMA ESPOSA EXPATRIADA

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  11. Oi Luiza,
    Parabéns pelo Blog.Voei lendo seus comentários de Paris e alguns textos. Quero ter tempo para fazer isto também.
    Bem, mas já que já ajudou muita gente a se aventurar por aí, gostaria de saber se já soube das facilidades de ir a Paris em menos de um ano, digo em relação à imigração.

    Merci!!!

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