sábado, 19 de junho de 2010

Viajando às pinceladas



Lindas montanhas emolduram a paisagem próxima do aeroporto. Que linda, essa chegada ao Espírito Santo. Nunca tinha reparado nesse relevo tão... diferente. Parece até uma pintura.
Vitória está lá. Meu destino desta vez. Mais uma pincelada e a gente desce.

O caminho agora é outro, assim como o ritmo (BEEEM mais lento).
Do avião, passei para um carro 95, vidro da frente trincado, dançando com a ajuda dos buracos da estrada, mas quem se importa com pinceladas tremidas quando se vê um mar à direita.

Prata, azul, branco, verde - Difícil definir aquele mar. Rochas, espuma de onda, vontade de parar, dobrar a calça e esquecer que o mundo existe. Só passear na areia, mais nada.

Nova Almeida, Jacaraípe - Às vezes acho que reconheço alguns daqueles cenários, pinturas esmaecidas de certas férias de infância - Aquela igreja? Acho que sim, já visitei - e me vêm à lembrança algumas das fotos já envelhecidas pelo tempo, em um dos álbuns da família na casa da minha mãe.

No dia seguinte, saio de Aracruz bem cedinho, novamente com destino a Vitória. Mais uma vez o mar dá ´Bom dia´- Realmente, o dia é bom. Lindo. Perfeito. Azul. Quente. Enfeitado de mar. Nenhuma pincelada traduz a beleza daquilo que já temos, mas que quase todos os dias nos esquecemos de enxergar.

Sei que mineiro é meio doidinho com o mar. ´Doidim` com o mar, a gente diz.
Pra mim, doido é quem não dá conta de admirar uma coisa dessas.
Que passa do lado sem dedicar alguns segundos de olhar.

Amo minha terra, tenho orgulho de minhas raízes... Mas como gostaria de ter uma vista para a praia, um cantinho do pensamento, só para olhar para aquela imensidão azul, meditar, respirar, escrever... O mar mexe com as idéias da gente, e de tanto mexer, acaba criando outra cor.

A gente tem outra cor perto do mar. Ali, a gente é dourado.

Parabéns, Vitória, que tem mar e montanha. Cuidem bem da terra de vocês. Dessa vez, ao invés de fotos, guardo pinceladas de memórias, cenas de um lindo dia que pareceu amanhecer só para nos agradar.

domingo, 6 de junho de 2010

Viajar Vicia


Meu tio é o cara.
É o cara que conheço que mais entende de História.
Ok, posso estar exagerando. Quando a gente gosta, a gente exagera mesmo.
Mas ele é o cara, ao menos para mim.
Preciso de livros? Ele me empresta.
Bendito seja meu tio no reino das livrarias do bairro. O livreiro nunca ouviu falar daquela publicação? Meu tio explica. E pesquisa.
Meu tio nunca havia visitado a Europa. Aquilo me incomodava, de verdade. Não é à tôa que eu vivia aborrecendo o coitado. "Tio, tem que ir para a Europa"
"Não dá" - ele respondia - "O trabalho não deixa"
"Que trabalho, que nada" - eu retrucava - "Vai, leva a tia. Vocês merecem! Você vai entender tudo aquilo lá, muito mais do que um monte de gente que eu conheço. Vai tio!"
"No ano que vem, quem sabe" - ele dizia, mais para me fazer ficar quietinha e mudar de assunto. Eu aborreço mesmo. Aborrecia a cada chance que eu tinha. Vai que um dia ele resolve, eu pensava.
Meu tio resolveu.
Que alegria senti quando o vi entrando com a minha tia na agência de turismo onde trabalho.
E já que estariam na chuva, os dois decidiram se molhar com estilo: um roteiro grandão, passando por Portugal, Espanha, França, Bélgica, Suíça, Áustria, Itália e sei lá mais onde.
Um mês de Europa. Um mês de História. Muitas histórias para contar.
Eles pagaram à vista - acho que foi por medo de desistir no meio do caminho.
Nos meses de preparação, ajudamos presenteando-os com guias das principais capitais européias.
Até que maio chegou.
Meu tio e tia sumiram, nem deram notícia.
"Bom sinal"- pensei. "Quando dá tudo certo, é assim mesmo"
De vez em quando me perdia em pensamentos, tentando imaginar o que faziam por lá.
Ficava também imaginando se os dois estavam se acertando com a nova máquina digital de 10.2 megapixels.
Meu tio é um cara que gosta de História, mas não necessariamente de máquinas digitais de 10.2 megapixels.
Um dia, no trabalho, meu telefone tocou.
"Ué, tio, tá ligando da Europa?"
"Não, já chegamos!!!"
Claro que foi a melhor coisa que fizeram no mundo. "Uma viagem perfeita" - minha tia definiu. "Não tinha jeito de ser melhor"
Ali, do outro lado do telefone, enquanto ele me contava, com uma voz rouca de gripe (ninguém é de ferro), mas com o coração animado, o espetáculo que as seis gôndolas da excursão, juntinhas feito uma procissão, provocaram na cidade de Veneza, fui eu quem fiquei sem voz.
Eles subiram a Torre Eiffel à pé porque erraram a fila.
Fizeram todos os passeios opcionais que podiam, mas nem ligaram para compras.
Entenderam que o mundo é grande, mas feito de seres humanos. Que somos diferentes, e ao mesmo tempo tão parecidos.
Que temos de evoluir na educação, respeitar as regras, entender o que está por trás, buscar respostas, aprender.
Eles já estão preparando o novo roteiro, acreditam? Agora é pro ano que vem, de verdade.
VIAJAR VICIA.
E nunca é tarde para começar...