domingo, 23 de janeiro de 2011

Um pastor alemão, um sofá e uma cidade chamada Brasília


A primeira vez que fui a Brasília demorou 10 horas. Naquela época, era muito comum eu viajar de ônibus à noite e trabalhar o dia inteiro. Ou melhor, tentar trabalhar. Não tem nada pior que a sensação de sono pesado batendo na sua porta durante todo o dia, não há nada mais constrangedor (e aflitivo) do que tentar parar um bocejo no meio de uma reunião.

Trabalhar depois de uma noite mal dormida em um ônibus (convencional, diga-se de passagem) é realmente desumano. Bendita uma hora de viagem de avião! Hoje sou feliz e sei que sou rs...

Acabo de visitar Brasília novamente, mas por mais que o tempo passe, não consigo me desvencilhar da imagem que vem à minha mente quando penso em nossa capital, tudo por causa da minha primeira visita ao Planalto Central.

A imagem de um pastor alemão. E de um sofá. Ok, sei que é estranho, mas vou contar como tudo começou.

Era noite, e eu estava a caminho da minha hospedagem. Naquela época, hospedar-me significava abrigar-me em um dos dormitórios das escolas para as quais eu trabalhava. Nesse caso específico, era uma residência de religiosos, atrás do terreno de uma escola católica, perto da quadra poliesportiva.

Pois bem, lá estava eu, em companhia da recepcionista da escola, quando ouço um grito (dela) e vejo um vulto correndo em minha direção.

Um segundo depois, o vulto tinha um bafo de cão (literalmente), as patas sobre o meu peito e a boca, aberta, bem pertinho do meu pescoço.

Sabe descarga elétrica? Agora imagine uma assim, mas de adrenalina. Quase surtei, mas fiquei estática. Achei que tinha chegado a minha hora, mas por que em Brasília, qual seria o significado daquilo? Graças a Deus meu anjo da guarda veio em forma de porteiro, o porteiro da escola, que tanto gritou para o cachorro que o danado acabou me largando e voltando para o seu lugar.

-Ele é treinado para atacar, sabe? – Explicou o funcionário.

Sim, eu sabia. Tinha aprendido da melhor forma possível. E desaprendido a andar. Minhas pernas já não mais me obedeciam.

Aquela noite foi mesmo muito maluca. Toquei o interfone do meu “suposto abrigo” umas duzentas vezes, e nada. Resultado? Dormi no sofá da sala do diretor da escola. Quer dizer, tentei dormir, pois não conseguia tirar a imagem do cachorro peludo do meu pescoço, ou melhor, da minha cabeça. Noite danada. No dia seguinte, até meu mindinho doía. Passei a valorizar os dias de trabalho pós-noites mal dormidas em ônibus convencionais. Elas realmente são excepcionais perto das noites mal dormidas em sofás de diretores de escola pós-quase-ataque de Pastor Alemão.

-Gostou do hotel, moça? – Perguntou o taxista ao me levar, na última quarta-feira, ao aeroporto.

-Gostar é pouco, meu amigo! Eu amei!!! Aquilo é um paraíso... Verdadeiro paraíso! - comentei, com um sorrisão no rosto, para um motorista que fez cara de desconfiado...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Essa vida é mesmo um filme...


Cinema com cheiro de novo era algo que há muito tempo eu não experimentava.

Ser novo tem seus pontos negativos. A recém-inauguração parece justificar várias falhas, inclusive a de não aceitar nem cartão de crédito, nem cheque. Ainda bem que estava com dinheiro na carteira, coisa que raramente faço hoje em dia... Mas tudo tem sem preço, e cinema com cheirinho de novo, carpete vermelho limpinho, tela enorme e sensação de que você está em outra cidade - mesmo sem sair da sua - certamente tem seu valor!

BH tem um novo shopping, o Boulevard. Já foi inaugurado há um tempinho, mas ainda não tinha passeado por aquelas bandas. Melhor que passear entre as lojas estalando de novas, só mesmo inaugurar o cinema e repetir o filme: Enrolados.

Não consigo imaginar a vida sem o cinema... Mas a animação da Disney tem um lugar especial, uma cadeira cativa no meu mundinho de cinéfila. É por isso que não me canso de vê-las uma, duas, dez mil vezes! Como já tinha assistido o filme em 2D, cismei de vê-lo em 3D! Não parava de sonhar com aquela cena das lanternas iluminadas subindo, subindo, e... Vindo parar na minha mão!

Só não contava que seria o dia de outra estreia...

-Tá vendo, meu bem? – perguntou o rapaz na fileira de trás, dirigindo-se à namorada.
-Não...
-É assim, ó. É como se as coisas ficassem mais perto de você, como se a gente fosse encostar nelas, entende?
-Sei... Espera aí... TÔ VENDO!!!! AGORA TÔ VENDO!!! Nossa, que legal, esse negócio de 3D! Fica pertinho, né???

Ri baixinho da situação. Não posso negar que foi divertido no início, mas depois de um tempinho confesso que passou a me irritar, já que o casal me pareceu achar que estava em sua própria sala de TV, e não em uma arena sagrada rs... Ao menos os comentários como “NOSSA, MAS QUE CABELO É ESSE, PRECISA DESSE TAMANHÃO TODO?” ou “GENTE, OLHA A BORBOLETA, OLHA O PASSARINHO, PARECE QUE TÁ AQUI!” ou “OLHA O OLHÃO QUE ELA TEM!” não foram suficientes para quebrar o clima da cena mais romântica e delicada da história da Disney (ao menos para mim), quando Rapunzel e seu “José” , sozinhos em uma gôndola, se perdem em meio a um balé de lanternas luminosas...

Puxa vida, como é bom sentir arrepio por conta de um desenho animado! Sinal claro de que estamos vivos... Melhor que inaugurar um cinema é chorar em um filme da Disney! Não tem preço, nem cartão, nem cheque, nem dinheiro!

Como o cinema faz parte da minha vida, também faz parte das minhas viagens. Não é raro me lembrar de meus passeios através dos filmes que assisti. Parece bizarro, por exemplo, pensar que em Santos (SP), durante minha infância, o cinema tinha área de fumantes, separada por vidro!

E como é saudoso me lembrar da sessão de cinema no Hollywood Theatre em Los Angeles, que frio na espinha ao ver aquela enorme cortina vermelha se abrindo...

Ou da sessão em companhia de meu primo, na cidade de São Francisco, na Califórnia, quando experimentei pela primeira vez o conforto das poltronas reclináveis...

Ou da sensação de conhecer o modelo “Cineplex” nos EUA, quando aqui no Brasil ainda não tínhamos muitas salas de exibição em Shoppings... Fiquei perdida ao ver aquele corredor com uma sala após a outra, tão perdida que fiquei pulando entre elas, assistindo a mil pedaços de filmes diferentes e rindo que nem uma embriagada!

E assistir "Fantasia" em uma Tela IMAX em Nova Iorque? Algo próximo do Paraíso, tenho que confessar!

Já fui a única expectadora de um filme em um cinema de shopping em Palmas, no Tocantins.

Já chorei no saudoso Cine Roxy, aqui em BH mesmo, por achar que tinha vivido alguma coisa por ali na vida passada rs...

Já assisti a um filme de terror (claro que se soubesse antes não teria ido!) sozinha em Montreal, e agarrei o braço da minha vizinha sem pensar duas vezes!

Já assisti “Todo mundo em pânico” em companhia de uma ex-freira e quis morrer de vergonha!

Ah, essa vida é mesmo um filme... Graças aos nossos cinemas, companheiros eternos de viagens inesquecíveis...