quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Que eu tô voltando pra casa... (Welcome, intercambistas!)



Nessa época do ano, meu Facebook fica invadido de relatos de intercambistas saudosos de suas casas. São lamentos que leio diariamente e que me fazem pensar na vida, e em todas as surpresas que uma experiência internacional nos traz.

Se você, leitor, imagina que esses jovens estão sentindo falta de seus familiares do Brasil, está enganado. Isso foi há um semestre. Há uma vida. Sim, naquela época eles choraram a dor da falta de suas raízes, do cheiro do travesseiro, da comida caseira, da boa e velha conhecida escola, dos bons e velhos conhecidos amigos, do de sempre, do usual, do habitual, do seguro.

Mas como eu disse, isso foi há uma vida, parece. Porque hoje esses jovens não são mais aqueles que conheci. E não estou falando do cabelo que cresceu, dos quilos incorporados, da altura, ou mesmo da fluência em uma segunda língua. Estou falando de uma segunda casa. De um segundo país. Do fato desses adolescentes, hoje, serem frutos de dois mundos.

Ser um filho de duas nações é enriquecedor, e ao mesmo tempo, difícil. Significa identificar-se, muitas vezes, com algo que não está presente fisicamente, seja o aroma de um doce, a sensação do frio, uma palavra que não se traduz, uma pessoa especial. Ser intercambista pode significar abrir mãos de irmãos mais novos e voltar a ser filho único, ou mesmo deixar pra trás um amor significativo, um professor adorado, uma melhor amiga recém-descoberta. 

Nesses 20 anos de estrada já presenciei muitas histórias. Alunos que começaram a namorar alguém no intercâmbio e namoram até hoje a distância (anos e anos), encontrando-se esporadicamente; estudantes que se apaixonaram pelo estilo de vida do país que escolheram para o intercâmbio e voltaram para fazer faculdade; jovens que adquiriram o hábito de serem cidadãos do mundo e se tornaram intercambistas permanentes, participando de cursos aqui e ali, em constante movimento pelo mundo; intercambistas que, quem diria, saíram do Brasil na vida adulta para se casar com a alma gêmea encontrada no High School; e adolescentes que voltam para casa, e que independente de continuarem no Brasil, passam a ser pessoas múltiplas e divididas, esperançosas e saudosas, críticas, inteligentes, e com muita sede de viver.

20 anos é muito tempo, principalmente com as rápidas transformações que experimentamos na atualidade. Mas independente de nossa evolução, aposto que ainda presenciarei muito choro de saudade inversa nessa volta do intercâmbio. Tem sofrimento que é gostoso, e esse é um deles. Mostra que a vida agora é em dobro.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Se viagem inspira, por que tanto a expiramos?



Somos mestres em jogar nossas experiências para fora, seja no Face, Instagram, Whatsapp.

Publicamos fotos que muitas vezes debocham dos ex-amigos, provocam inveja, esfregam na cara das pessoas que "estamos de férias", "aproveitamos a vida", "somos mais, temos mais, sentimos mais, viajamos mais".

Gastamos mais tempo editando as fotos que observando a imagem que está à nossa frente.

Eu sei, nem todo mundo é assim. Redes sociais existem para compartilhar também as coisas boas. Aprendemos com as descobertas dos amigos, as dicas valiosas, e muitas vezes viajamos junto só de observar aquelas cenas postadas. Mas dá pra sentir com aquela sintonia fina que todos temos em algum lugarzinho de nós, qual é a diferença entre compartilhar e esnobar, entre crescer e depreciar, entre colaborar e denegrir. A gente sente, sabe, e curte quem usa a inteligência e delicadeza nas redes.

Em minha última viagem, fui a um restaurante localizado em uma das áreas mais lindas que pude conhecer. Logo na entrada, uma placa avisava aos visitantes: Não temos wi-fi, temos vista. Meu Deus, e que vista! Tão linda que ainda fecho os olhos e tento imaginá-la novamente nos momentos de estresse. Como seria bom estar ali de novo...

Coincidentemente, dias depois, um outro restaurante escolheu novamente uma placa para receber seus clientes. Essa já dizia: Não temos wi-fi, conversem entre si.

Que tal trocar experiências em um encontro com os amigos ao voltar de viagem? Mas que seja um diálogo de verdade, uma troca, um momento de dar e receber. Ofereça dicas, pense no outro, pergunte sobre as experiências de quem está ali com você, e que certamente possui algo para enriquecer ainda mais o bate-papo. Por favor, não vá pelo caminho do "eu isso", "eu aquilo". Olhar para o próprio umbigo está fora de moda. Se quer compartilhar, faça-o, mas honrando o verdadeiro sentido da palavra. E viaje cada vez mais, pois terei prazer em segui-las, seja lá onde for!