domingo, 23 de outubro de 2016

E assim redescobri Buenos Aires



Acordo várias vezes pela madrugada para não perder meu compromisso da manhã. Checo o Google Maps para apontar a direção da próxima reunião. Pratico o espanhol abordando o vendedor de revistas, o moço da lanchonete, o recepcionista do hotel, a garçonete do restaurante.

Não, não há ninguém do meu lado. Mais uma vez viajo sozinha a trabalho, e entre as reuniões agendadas, tenho a companhia dos meus pensamentos, das minhas percepções, e de todos os meus sentidos, normalmente aguçados quando nos encontramos num ambiente diferente. Nesse caso, Buenos Aires.

Pizzarias, cafeterias, livrarias, papelarias... Que delícia, um cinema de rua, há quanto tempo não via um desses! E mais teatros, e mais livrarias, e mais pizzarias com os mais diversos títulos, desde "a mais tradicional ", "a melhor", "a mais popular" ou até mesmo "a única" entre as várias outras do mesmo quarteirão.

Enquanto saboreio uma empanada de carne e tomo uma Schweppes de pomelo, a larga avenida ferve em todas as direções. Jovens com fones de ouvido dão suas passadas sem reparar no que há ao redor, idosos elegantes atravessam a faixa de pedestres com cuidado, pessoas mendigam, pessoas veem vitrines, pessoas encontram amigos, pessoas ignoram pessoas.

Estou só, mas me vejo ali, entre os cidadãos comuns que vivem nas grandes cidades. Estranhei sabores como a toranja, mas identifiquei-me com o doce de leite. Confundi-me com o horário, mas não me soou estranho o barulho das buzinas.

Ainda assim, sou estrangeira. Não entendi o motivo do cartão de metrô não ser vendido na própria estação do metrô. E também não compreendi porque vários trens não têm sistema de som.

"Callao” – diz a senhora do meu lado, anunciando o nome da estação enquanto eu me esforçava para enxergar do lado de fora do vidro da porta de um vagão lotado. “Gracias”, sorri, agradecendo aos anjos protetores dos viajantes, que vem na forma das pessoas prestativas que ajudam assim, de graça, sem a gente nem mesmo ter que pedir.

Cada vez que viajamos temos sensações diferentes, mesmo sendo um local já previamente visitado. Mudam as regiões onde nos hospedamos, mudam os hotéis, os restaurantes, o clima, os estabelecimentos comerciais, e principalmente, mudamos nós, seres em constante movimento, assim como as cidades em todo o mundo.


O que não muda é vontade de descobrir o novo e de aprendermos com as nossas pequenas e grandes descobertas. É, viajar vicia.